segunda-feira, julho 13, 2009

Diário de Viagem - dia 3

12 de Julho de 2009,

“Sir, you promised you'd come back yesterday but you didn't”, disse o Siva, empregado do café Mondegar onde tinha estado no dia em que cheguei, como se as promessas dum freguês fossem para levar a sério. Num gesto de humildade desculpei-me e expliquei-lhe que tinha andado a visitar a cidade com um amigo e que tínhamos acabado por almoçar noutro lado. Acabou por regressar mais duas ou três vezes, entre garfadas de kebab, uma para me perguntar o que achava da ìndia e outra para me sugerir que visitasse a terra onde nasceu - bem no centro do país - e de onde é originário o kamasutra. O saber não ocupa lugar, talvez ainda passe por lá.

A mesa onde me encontrava não tinha sido, na verdade, a mesa onde me tinha sentado quando entrei. Tinha acabado de pedir o almoço quando reparei que na mesa em frente dois locais me observavam enquanto comentavam. Resolvi saudá-los e a típica pergunta surgiu: “De onde és?” A resposta típica surgiu: “Consegues adivinhar?”. “Não me digas que és Indiano?”, “Não!”, “Italiano?”. “Não!”. Resolvi acabar com o diálogo porque como na maioria das vezes, a não ser que dê dicas muito objectivas a resposta certa não surge antes de vigésima vez. “Sou do primeiro país a ter chegado à Índia” disse-lhes eu. A superioridade indiana com que antes me olhavam fez saltar um “Ahh, Portugal!” e nessa mesma altura um deles puxou uma cadeira e com um gesto de mão pediu-me que me sentasse ao lado deles. Eram dois tipos simpáticos, aí dos seus 35 anos, empresários do vidro: “Este copo de onde estás a beber, as garrafas que aqui vês e todo o vidro que aqui têm vem da minha fábrica”, disse um deles. Acabámos a falar das diferenças entre China e Índia (naturalmente acham que a Índia é 30 vezes superior à China), da economia paralela e de política. Estavam com pressa e rapidamente se despediram, gesto que repeti depois de pagar a conta e de prometer ao Siva que amanhã estarei de volta.

Enquanto me dirijo para o porto para apanhar o ferry que me levará à Elephanta Island - ilha onde há 1300 anos atrás se erigiu um dos templos mais importantes da Índia dedicados ao Deus Shiva, e cujo nome foi dado pelos primeiros portugueses que aqui chegaram - ainda houve tempo para ajudar um pedinte e ser convidado para participar como figurante num filme de Bollywood.

O mar está revolto. A viagem de mais de uma hora não foi fácil, feita num cacilheiro que seguramente não era mais seguro do que as primeiras caravelas que aqui chegaram há 500 anos. Aproveitei para fechar os olhos e relaxar, enquanto a família que estava sentada ao meu lado aproveitava para fotografar tudo à sua volta, como se este fosse o mais especial passeio domingueiro. Chegados à ilha, a maré de guias a querer vender os seus serviços inunda o local. Acabo por acordar com um deles um preço justo e seguimos a passos largos para as escadas que nos levam ao cimo do monte. Conta-me que nesta ilha vivem 1600 pessoas, todas elas a subsistir exclusivamente das bugigangas que vendem aos turistas e das visitas guiadas e que aqui só há electricidade 4 horas por dia, proveniente dum gerador. O templo é interessante, especialmente por ter sido esculpido na rocha e pela idade que tem. Não tem seguramente a majestosidade dos templos de Angkor no Cambodja mas tem a proximidade espiritual de termos sido nós a nomeá-lo. Entre fotografias e explicacões, fui interpelado por um africano que vim a saber mais tarde ser moçambicano. Queria fazer um brinde com umas cervejas que trazia num saco de plástico - o nível de álcool no sangue que trazia enferrujava-lhe o português - e só não levou a intenção a bom porto porque alguém o convenceu que isso não seria benvindo num local sagrado e seguramente isso provocou nele o medo de poder vir a ser divinamente castigado. Tirámos umas fotos e prometi que as enviarei mais tarde.

A parte da manhã tinha, no entanto, sido o ponto alto. Dez da manhã e dirijo-me para Banganga Tank, local místico em Bombaim. No cimo dum monte, entre prédios altos e milhares de pessoas que se sentam nas ruas, encontra-se seguramente a favela mais sagrada do mundo. No meio deste bairro, uma piscina gigante ao ar livre, cheia com água das chuvas e circundada por bancadas onde saris e túnicas voltam a ser vestidas depois do banho sagrado . No meio deste tanque, uma haste gigante marca o centro da terra. Segundo reza a lenda, o Deus Ram teria perfurado a Terra dum lado ao outro e uma das pontas da lança teria rasgado Banganga. Em volta da piscina nasce toda a favela, uma mistura de cores e cheiros difícil de descrever. Labirintos mágicos ligam pequenos templos de onde ecoam cânticos e rituais difíceis de compreender. Sou convidado a entrar num deles, onde homens e mulheres de túnicas brancas, nesta ensolarada manhã de Domingo, misturam flores, água e pós num ritual de reza que têm tanto de bonito como de enigmático. Saio em direcção ao cume, onde putos jogam à bola com a mão, entre carros estacionados cheios de amolgadelas. Duas fotografias foram o suficiente para gerar interesse e acabei a marcar penálties e a ensiná-los a dar toques na bola e a reparar nas janelas cheias de velhotes que vieram para ver que circo era aquele que se tinha montado ali. Tempo de despedidas, entro num táxi e em alinhamento sagrado, começa a chuva torrencial.

São 23 horas. Acabo de chegar de mais um jantar com o Santosh e com outro amigo, depois de umas cervejas num Sports bar para fazer as despedidas, já que para eles amanhã é dia de trabalho. Entre o final do noticiário da noite e as conversas dos taxistas que lá em baixo esperam pelo último negócio do dia, apaguei a luz.

domingo, julho 12, 2009

Diário de Viagem - dia 2

11 de Julho de 2009,

Acordei cedo mas fiquei na ronha. Lá fora chovia consistentemente enquanto as ruas, apinhadas de gente, continuavam a sua rotina de apenas mais um dia. Acabo de receber uma mensagem do Sanjeev Mehta - director da Shopworks aqui na India e amigo do João Barbosa, meu amigo de Shanghai:
“Come to: Otters Club, Carter Road, Bandra West. Ask the taxi guy to bring you via the new bandra-worli sealing bridge. Call me anytime in case you get lost or the taxi driver needs directions in local language. Will be there at 1 pm. Cheers, Sanjeev.”

No dia anterior já tinha entrado em contacto com o Sanjeev. Desde logo me pareceu um tipo muito porreiro e acessível que fazia questão de repetir “Benvindo a Bombaim”, sabendo que isso me faria sentir mais em casa. Já um pouco atrasado saí do hotel rumo a Bandra, num táxi desta vez conduzido por um muçulmano de cabelo e barba cor-de-laranja. Por entre uns disparos de flash ao longo da marginal, uns olhares curiosos pelo espelho retrovisor e uns comentários empolgados que fazia da cidade, quase ficámos amigos. Passámos pela nova ponte, inaugurada há uma dúzia de dias, aparentemente uma excelente obra de engenharia, e com 5 minutos de atraso lá chegámos, depois de 50 minutos de travessia.

Tinha acabado de receber mais uma mensagem do Sanjeev a desculpar o facto de precisar de mais de meia hora para lá chegar já que tinha ficado preso numa reunião. Como só poderia entrar acompanhado por membros, fiquei sentado junto à recepção. Este era evidentemente um local elitista, apenas acessível à nata da nata de Bombaim. Embora num edifício raso que mais parecia uma sanzala tropical envelhecida do que um clube de elite, o amontoado de gente distinta que se passeava por ali, as raquetes de squash, a piscina limpa, os seguranças fardados e a quantidade de mulheres bem vestidas, pintadas e penteadas não deixam margem para dúvidas. Uma delas chama os filhos para a mesa enquanto cumprimenta um estranho que se aproxima - era o Sanjeev.

Descobri mais tarde que marcou encontro neste local por estar perto de casa, mas a razão poderia tão simplesmente ter sido a qualidade do repasto. Talvez a impressão que deixei à mesa não tenho sido a melhor, tal foi a violência com que lancei as mãos às costeletas de cordeiro e pernas de frango tandoori, às rodelas de cebola (as rodelas de cebola estão presentes em quase todas as refeições, um pouco como o pão está à nossa mesa quase sempre) e ao roti que acabou de chegar, mas o Barbosa já o tinha alertado para o facto dos portugueses se empolgarem perante boa comida.

O Sanjeev tem ar de Chuck Norris de Bollywood. Cabelo raso de risca ao meio com gel, umas calças de ganga meio apertadas por cima dumas botas castanhas e um polo às riscas brancas, azuis e amarelas. Tem dois ou três dentes forradas a ouro, uma pêra de barbicha e é um daqueles casos em que a voz não condiz com a cara. É difícil de acreditar que tem já 43 anos - não diria mais de 35 - mas com duas filhas em idade escolar e depois de me contar que já foi director-geral da Kodak para o Sudeste Asiático e de que já passou por mais de seis empresas, é bem possível. Falámos da Índia, do sistema escolar, da cultura empresarial, de planos futuros, de religião e da minha viagem e ficámos amigos. Falou-me tão bem das Maldivas que lá vou ter de ir qualquer dia.

Terminado o almoço, entrámos no carro para uma volta ao bairro. Pali Hills (mal comparado será Beverly Hills de Bombaim), uma descida à praia e uma igreja católica com 120 anos onde precisamos de entrar descalços. As despedidas fizeram-se lá para as 5 da tarde e ficou marcado novo encontro para segunda-feira. Regresso ao hotel em primeira-classe no combóio urbano. Uma carruagem inacreditável, verde tropa, semelhante às primeiras que haveria em Inglaterra na Revolução Industrial, ventoínhas penduradas no tecto, anúncios A3 pendurados em todo o lado e a mescla habitual de gente. Sento-me num banco corrido, pouco confortável, a olhar para cinco pessoas penduradas na porta, para o muçulmano ao meu lado e para um velhote que acabou de entrar e que parece saído dum DVD promocional sobre Yoga, de batina branca, duas pintas vermelhas na testa e cabelo e barba longa mas bem aprumada, que devagar tira do bolso o telefone para atender uma chamada.

É sábado à noite mas acabei por ficar no quarto. Comprei a viagem para Calcutá e sigo na terça-feira.

sábado, julho 11, 2009

Diario de viagem - Dia 1

10 de Julho de 2009,

Já com duas horas de atraso começo a ver ao longe Bombaim. Nove horas de vôo num sono mal dormido e a imagem dum aeroporto que nasce do meio duma favela. A imagem não é bonita mas impressiona.

Seguem-se as burocracias demoradas do costume e a consciência de que o primeiro teste está aí fora: apanhar um táxi. Toda a gente que se quer profissionalizar neste mestere das viagens sabe que a gravidade da extorsão varia na direcção directa do grau de desenvolvimento do país e não na proporção inversa do seu grau de espiritualidade. Maslow explicaria bem isto. E eu sabia que ia ser enganado. E pior que isso, levei isso na boa. Acabei por pagar 430 rupias por um veículo supostamente com ar-condicionado, onde toda a refrigeração passava por quatro janelas abertas. Era no final de contas um táxi da era colonial, sem espelhos, onde um Seikh ao volante fazia por criar três filas onde numa estrada evidentemente só cabiam duas. Não paguei pelo serviço mas paguei pela experiência - ao longo do trilho entre o aeroporto e o hotel vi o porquê de Bombaim ter o condão de deprimir e empolgar, deprimir e empolgar, deprimir e empolgar, com esta cadência de segundos: putos a andar nús na rua como se isso fosse cool, favelas que nos circundam, cheiros nauseabundos. Abro o vidro contrário e a locomoção faz entrar os saris de todas as cores das mulheres que tentam fugir da chuva, enquanto saltam e chapinham nas poças onde dormem os restos das iguarias que deram de comer a meia dúzia de famílias na noite anterior.

Uma hora depois chego ao Residency Hotel. Instalo-me num quarto que embora modesto é caro (Bombaim é a cidade mais cara da Índia e não se consegue um hotel por menos de 25EUR/noite) e volto a descer para começar o dia. Falo com o Lawrence, que por detrás do balcão e depois de ver pelo passaporte que sou Português faz questão de demonstrar a sua hospitalidade: “Ahh és Rodrigues? Conheço alguns Rodrigues aqui em Bombaim. Vais achar inacreditável quando fores ao Sul, vais ouvir pessoas a falar português e se puderes assistir a um casamento presta bem atenção às músicas que eles cantam, ainda se canta em português. Quando era pequeno aprendi isso mas já me esqueci”, disse ele. Enquanto saio para comprar um cartão de telemóvel não posso deixar de me congratular com o facto de que por onde quer que passe pela Ásia, não há nenhum ex-país colonial que seja tão bem recebido como nós, os Portugueses - é uma empatia honesta que se gera num segundo e que rapidamente nos permite criar uma intimidade que desculpa desde logo qualquer pergunta que não era suposto acontecer.

Acabo a almoçar no café Mondegar, uma sugestão do Ashwani e onde supostamente o pessoal da Unilever vem mandar abaixo umas cervejas ao final da tarde. A única condição que coloco é que me sugiram qualquer coisa não muito picante e acaba na mesa meia galinha num molho de menta e coentros, com um acompanhamento de cebola e lima e duas cerveja Kingfisher. Curto e grosso, uma das melhores refeições da minha vida. Acabo a conversar com o empregado - na verdade, a ser interrogado pelo empregado - que depois de saber que sou donde sou, faz questão de me perguntar o que faço, donde venho e para onde vou. Depois de passar a chuva e de lhe prometer que regressarei amanhã, faço-me à estrada. Em pouco mais de duas horas, compro um livro e um hit de Bollywood e visito as redondezas do hotel, entre meia dúzia de fotos em que registo esta cidade que parece que parou na era Vitoriana.

São 6h30 da tarde e o telemóvel toca. É o Santosh, local de Bombaim e amigo dos tempos da Unilever em Shanghai, já está lá em baixo. Depois de um abraço sentido seguimos para um táxi que nos levará até à Gateway, passando pelo Hotel Taj Mahal que depois dos ataques do ano passado já parece reconstruído, pela Marine Drive e pelas praias de Bombaim, onde ao pôr do sol se joga à bola, se mendiga, se descansa, até que a última chuva do dia envie toda a gente para casa mais cedo. Eu e o Santosh (Sequeira de apelido), ao sabor de iguarias do sul que comemos com as mãos, pomos a conversa em dia, conversa que se torna partilha pessoal, enquanto ao som da chuva miuda procuramos um taxi ao longo da marginal. Nada se substitui numa viagens destas à benção que é poder sermos guiados pela experiência e mestria dum local, poupam-se dores de cabeça, ganha-se tempo e entra-se em portas que nem o melhor dos guias consegue descobrir.

Esta aventura de 47 dias não podia ter começado melhor. São onze da noite e, ao final do dia em que tive nove horas de vôo num sono mal dormido, já espero ansiosamente pelo dia de amanhã.

quarta-feira, julho 08, 2009

Bruce Lee Singh

Shanghai, 8 de Julho de 2009,

a partir de amanhã dia 9, este blog ressuscitará. Não foi ao terceiro dia, como nas escrituras, mas ressuscitará.
A partir de amanhã dia 9, e durante 2 meses, o Bruce Lee passará a chamar-se Bruce Lee Singh e em vez de um cinturão, envergará um turbante.
A partir de amanhã dia 9, o Singh andará com uma mochila às costas, em redenção espiritual pelos caminhos do Da Gama, desde Bombaim a Goa, passando por Calcutá e ainda mais por onde as monções e os vice-reis quiserem.
A partir de amanhã dia 9, serão mais 47 dias.

Aquele abraço em partida,

Rui

quinta-feira, março 12, 2009

李振藩 CAPITULO CXLIII: Mario Crespo

Camaradas,

o brucelee está, como muitos de vós sabem, ligado à máquina. Por enquanto vai servindo de arquivo para compilar algumas coisas que, dada a memória ser curta, se perpetuarão pelo ciberespaço. Por um pouco de lucidez que faz sempre bem.


segunda-feira, fevereiro 02, 2009

李振藩 CAPITULO CXLII: Confucionices 2

Escolhe um trabalho que ames e nunca terás de trabalhar um dia na tua vida.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

李振藩 CAPITULO CXLI: Trapalhices

Será que o D. Policarpo é virgem? (comentário de leitor do Publico online ao comentário do Patriarca alertando as portuguesas para o “monte de sarilhos” em que se podem meter se se casarem com muçulmanos.)

Além de se discutir a crise e a recessão técnica eu sugeriria que se começassem a discutir problemas sociais graves como o envelhecimento da pirâmida etária e a permissão de venda de álcool a maiores de 65 anos.

E sem mais acrescentaria: será que o D.Policárpio é abstémio?

segunda-feira, dezembro 01, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXIXI: Confucionices

Estreia-se a partir de hoje neste blog, e por tempo indeterminado, a rubrica Confucionices. Não são mais do que alguns ensinamentos e reflexões deixados por um dos homens que mais influência exerceu sobre o pensamento neste lado do Mundo - Confúcio. Embora na maioria das vezes não encontre qualquer ligação entre aquilo que vejo estes abrunhos fazer e as ditas reflexões, tentarei sempre que possível extrair daí um exemplo daquilo que experiencio no meu dia-a-dia.

"O que o homem superior busca está em si próprio. O que o homem pequeno procura encontra apenas nos outros."

Será por isso que, caso não controle de 5 em 5 minutos se as minhas assistentes estão a fazer exactamente aquilo que lhes pedi e lhes pergunte religiosamente se têm dúvidas, me habilito a não ter o trabalho pronto a tempo porque entre perguntar a "outro" - leia-se a mim - ou não perguntar e continuar com a dúvida elas parecem preferir a segunda alternativa?

quarta-feira, novembro 05, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXIX: siga para karaoke

Camaradas,

raramente alinhamentos desta natureza acontecem. De facto não sei se já alguma vez aconteceu. Ter à frente daquelas que são e continuarão a ser as 2 maiores potências mundiais do século XXI duas pessoas que, quanto a mim, e pese a diferença de idades, de ideologias e de experiências, partilham uma visão positivista e um tanto ou quanto idealista do Mundo, as coisas só podem mudar e para melhor.

Obama juntou-se hoje. Este já cá anda "a assar frangos" há um tempo. Porque senhores destes nunca são demais, um abraço de "siga para karaoke",

司辉逸

李振藩 CAPITULO CXXXVIII: Yes we can.

Camaradas,

Quero um destes aí para Portugal. Só e só por isso defendo condicionalmente a clonagem.
Aquele abraço afro-asio-latino-caucasiano, de 1001 cores,

司辉逸

sábado, outubro 18, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXVII: Rota da Seda

Camaradas,

Concretizou-se agora em Outubro a viagem para a qual criei, talvez desde sempre, as maiores expectativas - até mais do as de lugares míticos como o Tibete, que ainda está para se concretizar. Xinjiang, no noroeste chinês, bem no centro da milenar rota da seda, é a maior província chinesa, casa da minoria Uyghur, turco-muçulmana. Faz fronteira com a Rússia para Norte, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia para Oeste. Tem o segundomaior pico montanhoso do Mundo a seguir ao Evereste (8611m), a maior depressão do Mundo (Turpan, 150m abaixo do nível do mar), a cidade mais quente do planeta, o segundo maior deserto do Mundo depois do Sahaara - o Taklamakan. Foi ainda em Xinjiang que fui assaltado pela primeira vez pelo sentimento, não sei se bom se mau, de que há chineses que se parecem comigo.
Raramente as expectativas e a realidade se alinham. Em Xinjiang isso acontece.

Até ao regresso,
司辉逸


quarta-feira, setembro 24, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXVI: pátria que me pariu

A todos os fanáticos,

aqui por estas bandas, todo o chinês tem, a bem da internacionalização, um nome inglês. Já por várias vezes vos expliquei este costume. Alguns Frank, outros Bill, há os George e os David, os Brad, os Tom e outros verdadeiramente hilariantes como Neo ou Tiger. Não há nenhum regra ou lei que determine a escolha do nome, fica ao critério do próprio e do bom gosto de cada um. Hoje, completamente por acaso, entrei num site da intranet da Unilever com os nomes dos mais recentes recrutados de 2008. Um dos listados, por certo um homem com uma carreira de sucesso à sua frente e de excelente bom gosto, pleno de originalidade, escolheu o nome que encontram abaixo. Este homem não se livra dum "bacalhau" quando o vir.

Aquele abraço orgulhoso da pátria que me pariu, portador do BI 11725889,

司辉逸


domingo, setembro 21, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXV: fengshui

Foi inaugurado no auspicioso dia de 30 de Agosto deste ano o Shanghai World Financial Center, o mais alto edifício em Shanghai, com 101 andares e 492m de altura e um dos 3 mais altos do Mundo. Embora impressionante, o realmente interessante do edifício é toda a estorieta que o envolve e que apenas meia dúzia de pessoas conhece.
A foto abaixo dá uma primeira ideia da coisa: a abertura/terraço do topo - agora piscina e jardim do Grand Hyatt, era no desenho original de há cerca de 10 anos atrás uma abertura com uma bola no meio. A apresentação oficial, qual Aljubarrota oriental dos tempos modernos, foi uma enxurrada de nacionalismos, com presidentes da Câmara a serem chamados de traidores e a pedirem-se cabeças. Porquê? Porque a empresa promotora é japonesa e o desenho do tal topo se assemelhava à bandeira do Japão - um arqui-inimigo histórico. Ora sem meias medidas, toca a embargar a obra até que haja condições para prosseguir. A solução apresentada foi simples: remova-se a bola. Dito e feito...


Tudo bem até aqui. O ainda mais interessante é que começa a construção e alguém vem a terreiro contestar que o edifício parece uma espada e que isto seria uma espécie de duplo sentido nipónico para presunção de superioridade. Porque depois disso não havia forma de refazer o desenho e os muitos milhões já estavam em marcha, a bem do fengshui e em nome do bom pragmatismo chinês, estará pronto em 2014 o Shanghai Center, um edifício com mais de 600m de altura e a pedido, em forma de dragão, porque segundo a mitologia chinesa, contra dragão não há espada que resista.

Qual catedral da Luz, o que a gente precisava era de uma coisa em forma de forno de lenha.



Aquele abraço nacional-benfiquista,

司辉逸

sexta-feira, setembro 12, 2008

Vayanse al carajo yankees de mierda, que aquí hay un pueblo digno.

Hugo Chávez, Puerto Cabello - Caracas, 11 setembro 08

Não sei se a data foi a melhor, mas as palavras foram bem escolhidas.
Aquele abraço anti-imperialista,

司辉逸


domingo, agosto 31, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXIV: deixem a galinha mijar

Cama-radas,

Às vezes penso que se o Mundo está no estado em que está isso se deve especialmente aos críticos e analistas que andam por aí. Nunca fui grande fã de ter um crítico de cinema a dizer-me o que é bom, mau ou "assim assim" ou um tipo qualquer da Bloomberg a dizer-me que o petróleo vai bater nos 200 dólares e o melhor é ir a correr para a bomba encher o depósito, que devo vender a casa porque vem para aí o subprime ou que não devo comer galinha porque a gripe das aves matou não sei quem. É um bocado como ir à bruxa, acreditar no que ela diz e viver apavorado todos os dias da nossa vida depois disso.

Bem, isto tudo para dizer que "ahh e tal não vás a Pequim ver os Jogos Olímpicos porque os tipos andam para aí a pôr bombas, aquilo deve estar uma granda confusão, vai haver fruta de certeza, terroristas em tudo o que é sítio, ataques químicos, estádios a ruir, aviões a serem desviados, galinhas com gripe em tudo o que é Hutong, a inflação a disparar, milhões de pessoas nas ruas, o caos do costume, ai a poluição, o diabo a sete".

Fui a Pequim sim senhor. Aterrei no novo aeroporto de Pequim em segurança, vi a cerimónia de abertura num bar apinhado de gente, acrescentei a um Europeu e a um Mundial uns Jogos Olímpicos, assisti ao primeiro dia do torneio de badminton ao vivo e a cores, almocei no único restaurante português na China - comi um "bife à casa" bem gostoso (sim, já sei, cuidado com a Encefalopatia Espongiforme) e regressei a Shanghai são e salvo a tempo de ler que a chinesinha que cantou na cerimónia de abertura afinal não era ela, de que uma das ginastas talvez não tenha a idade mínima e que o fogo de artifício era computorizado.

Para a História fica que todo este pragmatismo chinês deu ao país 51 medalhas de ouro e o primeiro lugar, ainda mais auto-estima e a certeza de que daqui para a frente só poderá ser melhor. Ao contrário de nós que continuamos a massacrar o Marco Fortes, a financiar milionariamente meia dúzia de pavões que trazem as famílias a Pequim em vez de mais atletas para medalhas e a achar que 2 medalhas não chegam só porque alguém prometeu que íamos levar mais. Senhor analista, se depender de mim, vai acabar a dormir debaixo da ponte.

Aquele abraço sem fairplay, de quem acredita piamente que de manhã só se está bem é na caminha,

司辉逸


sábado, agosto 02, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXIII: paparazzi

Camaradas,

a menos de uma semana da cerimónia de abertura daqueles que prometem ser os melhores Jogos Olímpicos de sempre (pelo menos é o que diz a chinesada por aqui...) seguem duas dezenas de fotos daquilo que parecem ser os ensaios para o grande dia 08/08/08.
A caminho de Pequim, aquele abraço de paparazzi,

司辉逸


quinta-feira, julho 24, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXII: protestos made in china

Li hoje uma notícia a informar que haverá em Pequim (durante os Jogos Olímpicos) 3 parques espalhados pela cidade onde os todos os interessados poderão demonstrar as suas frustrações com protestos públicos de todo o género. Digamos que é uma espécie de fórum democrático. Mas como quase tudo aquilo que é made in China, também isto apresenta fraca qualidade e levanta uma série de dúvidas:

Under Chinese law, citizens must apply to the local public security bureau five days in advance of a scheduled protest. Applicants must appear in person and offer detailed information about their topic, any possible slogans and the expected number of demonstrators. The law prohibits protests that are deemed harmful to national unity and social stability or that agitate for ethnic separatism. These prohibitions can be interpreted so broadly that most legal protests are not approved.


Aquele abraço em protesto,
司辉逸

quinta-feira, julho 17, 2008

李振藩 CAPITULO CXXXI: obrigado!

A todos,

o meu muito obrigado, por terem ajudado ao empate técnico na sondagem que aqui coloquei para tentar decidir qual deverá ser a minha próxima paragem. Resumindo e baralhando, 7 votos para B.A., 7 votos para Tóquio. O primeiro a oferecer trabalho será o vencedor.

Novamente, o meu obrigado por terem ajudado a complicar ainda mais o que poderia ter sido tão simples.

Até amanhã,

司辉逸

sábado, julho 12, 2008

李振藩 CAPITULO CXXX

Meus amigos,

aquilo que encontram abaixo é uma carta que presumo tenha sido enviada a todos os responsáveis das empresas onde a rapaziada do Programa Contacto tem feito os estágios, a pedir uma avaliação do estagiário e do programa. Daí não vem nenhum mal ao Mundo - sinceramente até acho que é uma boa medida - a não ser a partir do momento em que se percebe que a grande parte dos estágios é feita em empresas estrangeiras, com responsáveis estrangeiros, de língua estrangeira e a carta, a cargo de uma empresa portuguesa de consultores contratada pela AICEP, vem redigida e é enviada às empresas receptoras de estágiários em pleno português. Acredito que assim, num pressuposto de "quem cala consente", as avaliações serão de 20 valores para cima.

Um abraço de piedade por aqueles que não sabem o que fazem,

司辉逸

p.s.: já ouvi falar em casos de empresas aqui em Shanghai que andam a utilizar o google translator para tentarem perceber do que se trata. Afinal ainda há gente profissional.
________________

From: CCA - Consultores Associados, Lda [mailto:cca@novassolucoes.pt]
Sent: Tuesday, July 08, 2008 8:31 AM
To: joanne.wood@capitaleight.com
Subject: Avaliação do Programa "Contacto/InovContacto"

Como provavelmente terá sido informado, nomeadamente através do Portal Networkcontacto, a AICEP contratou a nossa organização para proceder à avaliação do programa em referência.


Para que o resultado de tal avaliação traduza com fiabilidade o seu desempenho, é fundamental a colaboração de todos os intervenientes, nomeadamente, as empresas que receberam os estagiários e coordenadores do estágio, a quem se solicita preenchimento do Inquérito on-line, complementado por comentários que entenderem pertinentes.



Do resultado da avaliação em causa, seguramente serão introduzidos os ajustamentos ao seu funcionamento, e, particularmente à Rede Networkcontacto, que, a desenvolver-se de forma adequada, seguramente será de grande utilidade para todos.



Em conformidade, agradecemos a sua colaboração, preenchendo o Inquérito presente em www.novassolucoes.pt/www1.

李振藩 CAPITULO CXXIX: estatísticas

Camaradas,

Já várias vezes tinha comentado convosco que um tipo quando está fora do país não só anda mais atento às notícias como bem mais susceptível quanto ao que se diz. Um bom exercício, para se ir avaliando a evolução daquilo que é o nosso verdadeiro problema enquanto povo - a mentalidade - é de quando em vez se ir dando um salto aos comentários abertos que alguns leitores fazem no site do Público, versando sobre quase tudo com uma substância de quase nada.
O último, postado hoje mesmo, a comentar a notícia de que Carlos Queiroz será o próximo seleccionador nacional é um exemplo de que mesmo com uma taxa recorde de entradas na universidade e de notas magníficas nos últimos exames de matemática e português, continuamos a formar energúmenos.


"Faz-me confusão a ilusão em que o país vive em relação à selecção nacional. Scolari saiu e o que deixou? Nada."

by Algum Idiota, in comentários www.publico.pt